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segunda-feira, 19 de outubro de 2015


O TUMULO DE JACK

Por:MARIANA RAYNAR

Abriu a janela do seu quarto, respirou fundo e sentiu o vento de outono tocá-la. Ela estava viva! Mas, será que isso era bom ?
O vento fazia arder toda a sua pele, secava as suas lágrimas as colando em seu rosto, balançava seus cabelos e ainda, por ousadia, trazia consigo o cheiro dele. Aquele perfume amadeirado que até há poucos dias ela havia sentido. Caiu na cama, abraçou o travesseiro e fechou os olhos. Ela estava ali! Estava acordada, ela estava viva, seu corpo estava ali, mas sua alma, seu coração e seu pensamento não! 

Respirou fundo e sem se levantar muito, procurou entre a escrivaninha e a porta do quarto o seu Mp3 . Estava ali jogado, como também estava o abaju, os livros, os óculos, o celular, sua máquina de escrever. Nada estava em pé, nada estava no seu lugar. Se o seu coração não estava, por que terceiros estariam ?
Deitou-se novamente. Estava fraca e a qualquer momento podia cair novamente. Ela estava craque nisso. 

Colocou os fones e deu play. Ao ouvir o que se tocava, mais lágrimas caíram. Até pensou em mudar a musica, mas ela estava disposta a seguir e pular obstáculos não era um bom caminho. Lembrou-se de quando ele recitava Drummond e sorrio ao lembrar de “As sem-razões do amor'' na versão daquele sotaque americano. Seu sorriso logo se apagou ao lembrar do poema que ela, de tanto recitar em meio as lágrimas, havia decorado involuntariamente : Ai de quem ama. 

Uma musica, dois poemas, duas pessoas e uma única dor. Concentrou-se na letra, e baixinho foi cantando, e se acalmando. 
Ele foi, mas antes prometeu que voltaria. Ela acreditou, ela esperou. 
Mas nessa vida nada é como queremos. Seu pensamento foi em encontro daquele dia. Ah, aquele dia.
O vestido de noiva estava pronto, as alianças compradas, os convites haviam sido distribuídos, tudo estava no seu lugar, mas algo faltava. O motivo dos sorrisos mais sinceros, dos abraços mais verdadeiros, do calor em meio a chuva, do conforto de um colo no verão adocicado. Ele! Faltava apenas ele. 

Ana tinha apenas uma missão, ir até o aeroporto da Base Naval buscar o seu amado, que havia partido em missão até os EUA. 
No dia e na hora marcada, vésperas de seu casamento, lá estava ela, pronta para o abraço mais desejado de sua vida. Desceu um, dois, três, quatro ... Veio coronel, capitão, piloto. Mas e ele? Oras, e ele? A cada descida era um sorriso, era um olhar. Ana até riu achando que seria mais uma das diversas pegadinhas do seu amor. 
Só que quanto mais os segundos passavam, mais seu coração apertava. 
O Coronel veio até seu encontro e entregou lhe uma carta, escrita com as letras de Jack. 

Ela não acreditava naquilo que lia, não acreditava naquilo que ouvia. Entrou no avião, procurou seu noivo até debaixo das poltronas e quanto mais corria mais vozes ouvia dizendo que ali ele não se encontrava. 
Quando finalmente caiu em si, não se aguentou e se desmanchou no chão.

Ana novamente se encontrava em seu quarto e em um impulso se levantou de sua cama, arrancou os fones do ouvido, pegou o casaco de couro marrom e bateu a porta com tudo e se foi. Se foi ao encontro de seu amado Jack. 
Ela se sentia em um filme e que para esta cena o diretor escolheria “Always”, a sua musica com o seu amado. Chegou até a sorrir enquanto corria, imaginando que tudo não passasse realmente de um filme e que nas próximas cenas ela teria um final feliz. 

Tudo logo se desmanchou quando se aproximou daquele lugar frio, acarretado de sentimentos saudosos e pessoas, muitas vezes esquecidas. Alguns passos a mais e o túmulo daquele que seria pra sempre o homem de sua vida estava diante dos seus olhos. Passou a mão sobre a foto preta e branca e se arrepiou com a frieza daquele mármore. 
Respirou fundo e deitou-se .
Ela ainda não acreditava que Jack, seu Jack, tão corajoso havia sido bombardeado tentando salvar a sua Nação, mesmo tendo se passado um mês.
Retirou do casaco a ultima carta escrita por ele. Foi lendo baixinho, como se lê-se para o seu coração e quando nas últimos linhas já se encontrava, aumentou seu tom de voz , virou-se pro túmulo e disse em soluços:

- Faço de tuas palavras as minhas meu amor . 
Olhando para cada palavra daquela carta leu os últimos versos daquele que um dia tanto amara. 
-Se na vida te encontrei, oh querida, em meus pensamentos na morte levarei. Sua boca com o sabor mais doce que encontrei, seus olhos com os verdes mais cristalinos já visto. Em nenhuma missão um dia pensei achar, a razão, a circunstancia de um dia eu viver. Se um dia eu partir, saiba minha querida, que eu irei agradecer a Deus, pois eu nunca imaginei que o anjo da minha guarda seria lindo como você. Ah, se um dia eu partir, lembrarei do teu sorriso, da tua voz, do teu olhar, das nossas brigas e mais ainda das nossas noites de amor. Te juro amor eterno e saiba que eu voltarei para te buscar, minha Ana.

Ana suspirou, deixou as lágrimas escorrerem e apenas completou como resposta diante daquela jura : 

- Eu acredito. Eu espero meu amor. Eu irei esperar.
Ele se foi, mas antes prometeu que voltaria. Ela acreditou, ela esperou. Na verdade, ela espera até hoje e não há um único aniversário de partida de Jack que ela deixa de visitar o seu tumulo . Mesmo após anos e anos ela ainda espera e a chama daquele amor ainda arde em seu peito.








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